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Os novos beneficiários da "bolsa-ditadura"
"além de traidores, serei
obrigado a considerá-los também caloteiros"
Prezados Ziraldo e Jaguar,
eu fui fã nº 1 de O Pasquim. Em seguida saberão
por quê. Por isto me sinto traído pela atitude de vocês
(aqui).
Vocês, recebendo essa indenização milionária,
fizeram exatamente aquilo que criticavam na época: o enriquecimento
fácil e sem causa emergente da e na estrutura ditatorial.
Na verdade, vocês se projetaram com a Ditadura. Vocês
se sustiveram da Ditadura. Vocês se divertiram com a Ditadura.
Está bem, vocês sofreram com a Ditadura, mas, exceto
aquela semanada na cadeia – que parece não foi tão
sofrida assim –, nada que uma entrevista regada a uísque
e gargalhadas na semana seguinte não pudesse reparar. A cada
investida da Ditadura vocês se fortaleciam e a tiragem seguinte
do jornal aumentava consideravelmente.
Receber um milhão de reais e picos por causa daquela semana,
convenhamos, é um exagero, principalmente quando se considera
que o salário mínimo no Brasil é de R$ 480,00.
Por mês...
Vocês não podem argumentar que a Ditadura acabou com
o jornal. Seria a mais pura mentira, se é que a mentira pode
ser pura. O O Pasquim acabou porque vocês se perderam.
O O Pasquim acabou nos estertores da Ditadura porque vocês
ficaram sem o motor principal de seu sucesso, a própria Ditadura.
Vocês se encantaram com a nova ordem e com a possibilidade
de a Esquerda dominar este país que não souberam mais
fazer humor. Tanto que mais tarde voltaram de Bundas –
há não muitos anos – e de bunda caíram
porque foram pernósticos e pedantes. Vocês só
sabiam fazer uma coisa: criticar a Ditadura e não seriam
o que são sem ela.
Eu vi o nº 1 de O Pasquim num tempo em que não
tinha dinheiro para adquiri-lo. Mais tarde, estudante em Florianópolis,
passei a comprá-lo toda semana na rua Felipe Schmidt, próximo
à rua 7 de Setembro, numa banca em que um rapaz chamado,
se não me engano Vilmar, reservava um exemplar para mim.
Eu pagava no fim do mês.
Formado em Direito, em 1976 fui para Taió. Lá assinei
o jornal que não chegava na papelaria do meu amigo Horst.
Em 1981 vim para o Rio Grande do Sul e morando, inicialmente, em
Iraí, continuei assinante. Em fins de 1982 fui promovido
para Espumoso e sempre assinante. Eu tenho o nº 500 de O
Pasquim, aquele que foi apreendido nas bancas e que os assinantes
receberam...
Nessa época, não sei se lembram, o jornal reduziu
drasticamente seu número de folhas. Era a crise. Era um arremedo
do que fora, mas ainda assim conservava alguma verve. A Ditadura
estava saindo pelas portas dos fundos e vocês pelas portas
da frente, famosos e aplaudidos.
Vocês lançaram uma campanha de assinaturas. Eu fui
a campo e consegui cinco ou seis. Em Espumoso! Imaginei que se cada
assinante conseguisse cinco assinaturas, ajudaria muito.
Eu era Juiz de Direito. Convenhamos: não fica bem a um Juiz
sair vendendo assinatura de jornal. Mas fiz isto com o único
interesse de ajudar o O Pasquim a se manter. Na verdade,
as assinaturas foram vendidas a amigos advogados aos quais explanei
a origem, natureza e linha editorial do jornal. Uns cinco ou seis
adquiriram assinaturas anuais.
No máximo dois meses depois todos paramos de receber o jornal,
que saiu de circulação. O O Pasquim deu o
calote... Eu fiquei com cara de tacho e, como se diz por aqui, mais
vexado que guri cagado. Sofri constrangimento por causa de vocês.
Devo pedir indenização por isto? Não. Esqueçam!
Mas agora que vocês estão milionários, procurem
nos seus registros e devolvam o dinheiro dos assinantes de Espumoso
que pagaram e não receberam a assinatura integral. Naquele
tempo vocês não tinham como fazê-lo. Agora têm.
Paguem proporcionalmente, mas com juros e correção
monetária, como manda a lei.
Caso contrário, além de traidores, serei obrigado
a considerá-los também caloteiros.
Ilton C. Dellandrea, Juiz de Direito
14/04/2008
http://dellandrea.zip.net/
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