Reencontro com o Espírito Absoluto - DEUS
Resposta ao colunista Carlos Heitor Cony
Em sua coluna no jornal "Folha de São Paulo" de 5 de setembro de 2005, Carlos Heitor Cony refere-se ao silêncio de Deus nos rumos da humanidade, visto a presença do mal radical.
A descrença em Deus é um problema atual da humanidade, fruto de um materialismo degradante e corruptor dos valores morais e espirituais dos povos. Todo o imediatismo de nossa época, a obtenção incessante de vantagens, o descaso com a realidade política que nos cerca, o individualismo exarcebado, conduzem impreterivelmente para a destruição dos valores de Deus, da Pátria e da Família.
Entender o que significa o Espírito Absoluto - Deus - é a primeira coisa a ser esclarecida aos povos, tornando-os conscientes do curso histórico até o presente momento. Uma vez conquistada a paz com Deus, os povos teriam formação espiritual o suficiente para romper com dogmas ultrapassados e empreender mudanças comportamentais em prol da harmônica relação entre os diversos países do mundo.
A divindade do homem se manifesta na forma de que ele pode optar em liberdade pelo Mal. Desta forma, o Mal não se restringe somente a um sentimento interior, mas sim, ganha existência mundana.
Uma livre escolha pelo Mal está sempre em nossa consciência, que é o próprio Mal, ou seja, aquilo que de fato não deve ser. A outra opção possível seria o Bem. Uma vez escolhido o Mal, nossa consciência entra em então em um estado desconfortável - por definição: a "consciência pesada". Torna crime o fato.
Uma vez praticado o Mal, podemos traduzir tal situação como uma ausência de Deus? Ele teria nos abandonado? Onde estará Deus? Onde devo procurá-lo?
Eu não preciso procurar Deus no além; eu também não conseguiria.
Os homens, ou a humanidade, não estão fora da relação entre o Bem e o Mal, pois eles não podem ser excluído de Deus. O homem não teria um outro lugar sem Ele. Caso o homem tivesse um lugar no qual Deus não estivesse presente, Deus seria trazido para o finito e Ele teria um limite junto ao homem. Porém, Deus é infinito, onipresente e eterno; ele transcende o homem e mora nele. Não existe um lugar, que seja a Ele inacessível. Ele é infinito como um Espírito absoluto e autônomo, o qual se diferencia em si mesmo e alcança no Espírito finito do homem, a existência e a realidade.
Gênesis [6,3]
Então disse o Senhor: O meu Espírito não
permanecerá para sempre no homem, porquanto ele é carne, mas os seus
dias serão cento e vinte anos.
Com isso afirma-se que o Espírito de Deus - Ele é somente Espírito - está presente nos homens. A partir de então, o Espírito do homem não é outra coisa a não ser, o Espírito de Deus.
Citando o escritor Plínio Salgado, "... a Primeira Humanidade, Politeísta, Panteísta, teve um caráter de adição. A Segunda, Monoteísta, tem um caráter de fusão. A Terceira, a Ateísta, tem uma índole de dissociação, de desagregação". Esta terceira humanidade, "...cujas expressões mais definitivas começam no Renascimento, atingem elevada altitude no Enciclopedismo e na Revolução Francesa e prosseguem nos panoramas dos dias da Grande Guerra e do Após-Guerra" baseia-se no cientificismo da época, "nas verdades em trânsito, da hipótese para a tese e da tese para a hipótese. É o caráter do experimentalismo, a feição extrema do humanismo" [1].
Através do conhecimento científico nós nos tornamos cegos para a realidade
mundana do Espírito Absoluto. Nós não reconhecemos mais seu poder
absoluto no ímpeto dos acontecimentos. A alteração da guerra para
um extermínio de biomassa humana e a perversa economia de livre mercado,
a qual esfomeia literalmente a humanidade, parecem obras-primas do
homem. A fé esvaecida em Deus lança, com sua última palpitação, o
anátema contra aqueles que ainda no século XX, com seus mais de cem
milhões de vítimas, e continuando ainda neste século, reconhecem o
Deus vivo: é dito a eles que depois do Gulag, depois de Dresden
e Hiroshima, visto o hectacombe sobre os campos de batalha de Verdun,
Estalingrado, Indochina e Iraque, pensando que ainda exista um Deus
Todo-Poderoso, infinito, onisciente e universal, que eles sejam considerados
blasfemadores.
Todavia, Deus não brinca com sua criação e as desgraças do destino não são pragas e punições para os desobedientes. Quem contesta isso, profana Deus.
Porém, quem nega por completo a Deus, não é capaz de falar sobre culpa e responsabilidade, pois não há nada que pode causar culpa e responsabilidade na consciência. Falta-lhe o Espírito Absoluto, a pessoa é um deficiente mental [2] e deve ser internada. Deus, como Espírito Absoluto, não existe desde o princípio da História, por completo e por si mesmo, ou seja, seguro de si e consciente de si. O mundo e seu fim não correspondem à execução de um plano já traçado. O mundo seria altamente supérfluo, um passa-tempo para um Deus aborrecido. Essa imaginação é blasfêmia e perversa.
O mundo e sua história são o próprio Deus, na forma da figura do outro (o homem), não um outro poder autônomo contra Ele, mas sim a matéria criada de seu Espírito, onde Ele se realiza e se observa, para tornar-se consciente a si mesmo.
É esta cegueira quanto à falta de Deus que nos deixa resignados, que nos torna impotentes e desencorajados. Nós nos sentimos abandonados. Pensamos, talvez, que não possuímos os meios com os quais poderíamos subjugar o poderoso inimigo.
Nós não compreendemos que é a nossa própria fraqueza espiritual que deixa o inimigo parecer fortalecido. Nós não reconhecemos a fragilidade do inimigo, pois não sentimos nossa força no Espírito.
Esta força cresce, porém, irresistivelmente do Espírito, pela forma
na qual o conhecimento é levado à razão. As reviravoltas políticas
que daí se originam, só podem ser imaginadas por aqueles que se enfronham
no pensamento idealista - no pensamento de Hegel, pois nele está o
aforismo da filosofia de Kant, dominado na constatação de que o Pensar
não é a exteriorização de nossa subjetividade, mas sim, é o movimento
do mundo mesmo, do "mundo em si" - DEUS.
Os pensamentos dos homens são os pensamentos de Deus. As ações dos homens são as ações de Deus - tanto no Bem como no Mal. A evolução em direção à harmônica conscientização do Espírito Absoluto é caracterizada por Plínio Salgado como a Quarta Humanidade, a Humanidade Integralista:
"A nova civilização realizará a grande síntese.
Síntese filosófica. Síntese política. Mas, principalmente, síntese das Idades Humanas.
[...]
[...] aqui, no Brasil, o homem arguto, cheio dos instintos percucientes que herdou de seus próximos avós selvagens, o "homem telúrico" de Keyserling, plasmado dentro dos puros sentimentos espiritualistas e cristãos, desfralda a bandeira do Sigma. Essa bandeira afirma a suprema síntese e desdobra-se num largo sentido humano e universal" [3].
Marcelo Franchi
[1] [A Quarta Humanidade, Plínio Salgado, 5ª Edição, Editora GRD, pág. 24 e 25]
[2] Deficiente Mental pode ser traduzido para o alemão como Geisteskrank, que significa literalmente Doente de Espírito.
[3] [A Quarta Humanidade, Plínio Salgado, 5ª Edição, Editora GRD, pág. 51]
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