| A crise financeira chegará
ao Brasil
"Bancos e monopólios continuam
mandando"
No dia 3, o Congresso dos Estados Unidos aprovou e o presidente
George W. Bush sancionou um pacote de 850 bilhões de dólares
de socorro às instituições financeiras afetadas
pela crise. A medida, porém, não acalmou os mercados
que vivem dias turbulentos. Desde o início do mês até
o dia 7 (data de fechamento desta edição), o índice
Dow Jones, que mede as ações negociadas na Bolsa de
Valores de Nova York, acumulou queda de 13%. No Brasil, os abalos
foram ainda mais fortes. Entre os dias 2 e 7, a Bovespa sofreu uma
perda de 19,4%.
Com isso, perdem força as análises
que sustentam que o país está blindado contra a crise.
Para o economista Adriano Benayon, não há nenhuma
possibilidade de o “colapso financeiro”, como prefere,
não afetar o capitalismo brasileiro. Nesta entrevista sobre
a conjuntura econômica, o professor da Universidade de Brasília
(UnB) analisa ainda os motivos da crise e afirma que ela já
extrapolou a esfera financeira e está atingindo o setor produtivo.
Brasil de Fato – "Quebradeira
geral", "caos" etc. Assim, a imprensa corporativa
vem noticiando a queda das Bolsas de valores em todo o mundo e,
especialmente, no Brasil. Por outro lado, o cotidiano dos brasileiros
ainda não foi alterado e poucas pessoas parecem estar cientes
desse "caos". Enfim, como (ou quando) a crise financeira
afeta a economia familiar?
Adriano Benayon
– A imprensa corporativa ocupa-se demais das Bolsas e pouco
de coisas mais importantes para a economia. As Bolsas estão
registrando quedas expressivas nas ações, e isso não
vai parar aí. Mas quebradeira mesmo é com os bancos,
financeiras e seguradoras.
Não chamo de crise o que está ocorrendo,
porque são crises sucessivas formando o colapso financeiro
em curso que se amplia e aprofunda. Os que fazem aplicações
já têm sofrido perdas, não só em ações,
mas também em outros títulos. Além disso, esse
colapso já contaminou a economia real nos EUA e na maior
parte dos países da Europa.
Essa seqüência certamente ocorrerá
também no Brasil.
BF - A crise, então, já
atingiu o setor produtivo?
AB - Como frisei, o colapso financeiro
atingiu o setor produtivo em muitos países e de modo sério.
É questão de tempo isso se agravar, inclusive no Brasil.
As bolhas financeiras acabam rompendo-se, como as formadas por títulos
com conexão cada vez mais longínqua (derivativos)
com os ativos imobiliários, fiduciários, cartões,
títulos de crédito, opções e futuros
de ações, de commodities etc.
Começa a haver queda de renda real dos
devedores, mesmo porque a concentração econômica
leva a criar quantidades colossais de ativos financeiros e mais
ainda de derivativos supostamente lastreados nesses ativos, enquanto
que a base real da economia, espelhada, por exemplo, nos salários
permanece praticamente estagnada.
Intensificando-se as inadimplências, o crédito encolhe,
bancos e financeiras vão ficando com ativos sem retorno,
tentam passá-los adiante e não conseguem. Muitos e
cada vez mais vão tendo que escriturar prejuízos,
vem a corrida aos depósitos e por aí vai. É
claro que, nessa dinâmica para baixo, o setor produtivo sofre
tanto por causa da queda da procura nos mercados de bens e de serviços,
como por dificuldades e custos mais altos para o crédito.
O aperto do crédito atinge tanto consumidores como empresas
produtoras de bens e de serviços. Nesse contexto, as cotações
da grande maioria das ações de empresas caem e esse
é mais um fator de perda de patrimônio das pessoas
e mais um fator de retração da procura.
BF - Entretanto,
professor, em entrevista ao Brasil de Fato (edição
292), o economista Nildo Ouriques, da Universidade Federal de Santa
Catarina, afirmou que a crise não afetou o lucro do setor
produtivo estadunidense, pois as transnacionais estão repatriando
dividendos da periferia capitalista. O senhor discorda?
AB - Provavelmente Ouriques está
reportando algo correto, mas é uma afirmação
genérica demais. Algumas transnacionais certamente já
vão lucrar menos em função da retração
nos EUA e na Europa. Além disso, dentro de algum tempo, haverá
também menos ganhos para enviar da periferia (nem digo repatriar,
porque elas ganham na periferia infinitamente mais do que nelas
investiram).
BF - O Congresso estadunidense
finalmente aprovou o pacote (que havia sido rejeitado pela Câmara
no dia 29 de setembro), agora de 850 bilhões de dólares
(antes eram 700 bilhões de dólares, mas na votação
do Senado, no dia 1º, foram incluídos outros 150 bilhões
em isenções fiscais), de socorro aos bancos, uma forma
de socializar as perdas com os contribuintes. Apesar disso, o senhor
acredita que esse pacote é necessário ou, mais ainda,
pode ser benéfico para os trabalhadores?
AB - De forma nenhuma. Os analistas
independentes e competentes nos Estados Unidos e na Europa têm
qualificado esse pacote como bandalheira. Os bancos beneficiados
são grandes doadores das campanhas de ambos os candidatos
à presidência [Barack Obama e John McCain], os quais
recomendaram a seus partidos a aprovação no Congresso.
O secretário do Tesouro [Henry Paulson, o autor do pacote,]
é ex-sócio diretor de um deles, o Goldman Sachs.
Penso que o pacote é ruim para a economia
dos Estados Unidos e para a economia mundial. Claro que é
pior ainda para os trabalhadores. Ele apenas livra a cara de alguns
banqueiros que abusaram de jogadas gananciosas, ganharam centenas
de bilhões de dólares com essas jogadas e não
vão ter que reparar o estrago que causaram.
Ele faz com que o governo dos EUA compre títulos
sem valor ou de escasso valor para limpar os balanços de
bancos e financeiras atolados nesses títulos, cuja manutenção
nas suas carteiras significa a bancarrota. Se houvesse democracia
nos EUA, essas instituições teriam que passar para
o controle de interventores do Estado e os recursos do contribuinte
seriam usados na aquisição de ações
delas bem desvalorizadas, como já ocorre em função
dos maus negócios (agora) para elas.
Outra coisa. Somente os ativos podres do setor
imobiliário nos EUA são estimados em 7 trilhões
de dólares, de modo que o tal pacote pode cobrir só
um pouco mais de 10% dos rombos. Além disso, se se incluir
os demais ativos com grande potencial de virar pó, a conta
poderá atingir mais de 100 trilhões de dólares.
Para que os leitores tenham idéia do problema, o valor nominal
dos derivativos, em dólares e euros, principalmente, passa
de 500 trilhões de dólares.
Portanto, o que estão fazendo é
jogar mais lenha na fogueira da inflação, sem resolver
nada na economia produtiva, pois não é aí que
estão investindo. O sistema concentrador, que comanda a política
econômica em quase todos os países do mundo, abusou
das ideologias econômicas do tipo neoliberalismo, globalização,
desregulamentação, Estado mínimo etc.
Agora recorre à intervenção
do Estado, porque controla discricionariamente o Estado (malgrado
a aparência de eleições presidenciais, votações
no Congresso etc.). Aí surge a usual louvação
infundada ao keynesianismo, uma doutrina que, como mostrou [o economista
e ex-senador, falecido em 2003] Lauro Campos, preconiza guerras
de grande porte, com mobilização de muitos soldados
(como a 2ª Guerra Mundial), para sair da depressão econômica.
BF - O economista Reinaldo Gonçalves,
em entrevista ao Correio da Cidadania, apóia o pacote do
governo dos Estados Unidos, porque entende que ele procura "travar
uma crise financeira que abrange todo o mundo", oferecendo
recursos para estabilizar as empresas e bancos envolvidos. O que
o senhor acha dessa posição?
AB - Mantendo o que afirmei na
resposta anterior, creio que, nesse ponto, o excelente economista
Reinaldo Gonçalves não está bem informado.
BF - Existe alguma possibilidade
de uma crise nos Estados Unidos não afetar o capitalismo
brasileiro?
AB - A meu ver, nenhuma.
BF - Os fundamentos da economia
brasileira (reservas) são realmente sólidos ou o Brasil
continua tão vulnerável quanto antes?
AB - Continua tão vulnerável
quanto antes. Basta dizer que, mesmo antes de o colapso financeiro
mundial não poder ser mais escondido, o déficit de
transações correntes do Brasil com o exterior já
era altíssimo.
BF - O mercado interno brasileiro
pode absorver as perdas do setor primário-exportador?
AB - Isso só me parece
possível mediante uma mudança completa de modelo econômico,
com o Estado fortalecendo empresas médias e pequenas e acabando
com os brutais subsídios em favor de transnacionais concentradoras,
que controlam os principais e quase todos os setores da indústria,
sem falar no agronegócio.
BF - O governo Lula tem propagandeado
uma política de comércio exterior que procura reduzir
a dependência do Brasil com relação aos Estados
Unidos, ao passo que estimula trocas com países do "Sul".
Até que ponto isso é verdade? Essa mudança
pode proteger o país da crise estadunidense?
AB - Sob o atual modelo, a orientação
do comércio exterior do Brasil depende mais das transnacionais
e de algumas outras empresas concentradoras do que da política
econômica do governo, mesmo porque esta é talhada segundo
os interesses desses grupos dominantes na economia.
BF - A política econômica
do governo atual (de juros altos, liberalização financeira,
câmbio flexível e superávit primário
elevado) ajuda ou piora as condições do país
nesta hora de crise?
AB - Não tem feito outra
coisa até hoje senão piorar as condições
do país. Claro que sob conjuntura mundial adversa o dano
vai ser exponenciado.
BF - O senhor acredita que, para
o Brasil, essa crise significa uma oportunidade para alcançar
um desenvolvimento mais independente?
AB - Acredito que ela oferece
oportunidade preciosa ao Brasil de buscar o desenvolvimento independente
(sem o comparativo, porque, primeiro, o modelo econômico é
radicalmente dependente, segundo, embora haja algum crescimento,
não há desenvolvimento real).
BF - Por quê?
AB - Porque, nessa situação,
pode-se entender melhor que convém desatrelar-se da economia
mundial controlada por oligarquias de potências hegemônicas,
as quais, de resto, controlam também a economia brasileira
em sua atual estrutura.
A Revolução de 1930 foi uma resposta
ao anterior grande colapso econômico mundial. Sua seqüência,
embora só conseguisse autonomia parcial, foi grandemente
positiva e as lições dessa experiência devem
ser aproveitadas, inclusive no sentido de não repetir erros.
A revolução mundial liderada pela
a Alemanha na década de 30 tentou libertar o mundo das amarras
dos gafanhotos internacionais, lutando contra as Altas
Finanças - NR.
Dr. Adriano Benayon, formado em
direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutor
em economia pela Universidade de Hamburgo (Alemanha). É diplomata
de carreira, tendo trabalhado na Alemanha, Bulgária, Estados
Unidos, Holanda e México, além de no próprio
Itamaraty. Foi professor da Universidade de Brasília (UnB)
e do Instituto Rio Branco e é consultor na área econômica
da Câmara e do Senado, além de ser autor de “Globalização
versus Desenvolvimento”, Editora Escrituras.
10 de outubro de 2008
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