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Independência para sobreviver
"... as montadoras transnacionais,
líderes na predação econômica do País"
Conquistar a independência nacional é requisito indispensável
para sustar o saqueio exercido por grupos estrangeiros, agora mais
dramático com a perspectiva da secessão de territórios
ditos indígenas, começando no Extremo Norte do País.
Isso começa a sensibilizar lideranças civis e militares.
O Brasil sofre também a incontrolada aquisição
de terras por empresas estrangeiras, como na monocultura de cana-de-açúcar
, a fim de produzir e exportar etanol. Além disso, sob o
pretexto hipócrita da preservação ambiental,
estrangeiros adquirem terras na Amazônia, calculando poder
comprá-la inteira por US$ 50 bilhões, uma bagatela
diante dos recursos transferidos do Brasil, da ordem de 2 trilhões
de reais/ano. Vide meu artigo “Saqueio e Perda de Direitos”,
publicado em A Nova Democracia, nº 37, outubro de 2007.
A absurda alienação de imensas extensões
de terras viabiliza-se por meio da supressão na Constituição
da distinção entre empresas de capital nacional e
de capital estrangeiro, bastando a estas registrar-se no País.
Essa supressão foi um dos muitos atos de lesa-pátria
cometidos na presidência de FHC, com a aprovação
do Congresso.
Ainda na área fundiária, o atual presidente
obteve do Congresso a Lei de Florestas (nº 11.284, de 02.03.2006),
para que a União licite concessões em 5,5 milhões
de quilômetros quadrados na Amazônia, por prazos de
40 anos, renováveis por mais 40. Qualquer empresa nacional
ou estrangeira poderá extrair madeira, apropriar-se da biodiversidade,
patentear recursos e explorar o subsolo.
A apropriação direta do solo nacional
por estrangeiros resulta da relação de forças
decorrente da cessão, intensificada a partir de meados dos
anos 50, de espaços estratégicos menos visíveis,
como o controle das empresas em atividade no País , aprofundando
as dependências: tecnológica, financeira, cultural
e, por fim, a política.
Controlando todos esses aspectos da vida e do poder
no País, não foi difícil às oligarquias
estrangeiras obter subsídios que potenciam o saqueio. A política
econômica “brasileira” programa o subdesenvolvimento,
ao cumular o capital estrangeiro de benesses, além de lhe
oferecer a livre exploração do mercado interno e do
mercado exterior. De posse do poder, os grupos estrangeiros realizam
as transferências que acentuam o empobrecimento do País,
cuja fraqueza estratégica, política e militar é
assim agravada.
Competentes analistas alertam-nos sobre a reconstituição
da 4ª Frota Naval norte-americana para agir em mares da América
Latina e do Caribe. Associam a coincidência dessa medida com
a descoberta de petróleo na camada de pré-sal sob
mares do Brasil, não descartando a intencionalidade da coincidência.
Ao mesmo tempo, o ministro da Marinha lembra a penúria e
o atraso tecnológico do equipamento de sua Força,
constatação, de resto, válida para as demais
Forças.
Exemplo contundente é o arrastar, por decênios,
do projeto de construir submarinos nucleares. Essa iniciativa da
Marinha, que desenvolveu excelente tecnologia própria, parece
nunca chegar à conclusão, porque suas verbas são
reduzidas e contingenciadas. Não é preciso ser perito
em assuntos bélicos para saber que os submarinos convencionais
não mais asseguram qualquer defesa naval. Só os nucleares
põem-se a salvo de mísseis, graças à
sua incomparável velocidade e às profundidades a que
podem descer.
Sem defesa para seu imenso e riquíssimo litoral,
à mercê de predadores hegemônicos, o País
está na iminência, ademais, de perder territórios
que lhe estão sendo subtraídos por meio de reservas
indígenas, como a “ianomâmi”, de 96 mil
km.quadrados, em áreas que recobrem as maiores reservas de
minerais estratégicos e preciosos, ademais de estupenda biodiversidade.
É em função dessas riquezas, existentes também
na Raposa Serra do Sol , em Roraima, que o Executivo federal a quer
demarcar em faixa contínua, além de expulsar os “não-índios”,
obedecendo aos conceitos racistas inculcados principalmente pelas
atuais potências hegemônicas, com extenso histórico
de genocídio nos cinco continentes.
Instalados a partir de 1990 por eleições
diretas controladas pelo dinheiro concentrado, os “governos”
têm colaborado para ceder esses territórios, que as
potências hegemônicas esperam dominar diretamente mediante
a independência formal deles em relação ao Brasil
, desenhada com a aprovação de Resoluções
da OIT, da Comissão de Direitos Humanos e da própria
Assembléia-Geral da ONU, em 2007. Mas a debilidade do País,
a qual enseja tudo isso, começou a acentuar-se em 1954, com
o início da política subsídios aos investimentos
diretos estrangeiros.
Não é só em relação
à defesa nacional que o Brasil vive à míngua.
A infra-estrutura está sucatada, ademais de inadequada e
erguida em função do modelo econômico e social
imposto de fora de País. O serviço (juros e amortizações,
sem contar a rolagem) das dívidas interna e externa da União
ultrapassou R$ 250 bilhões em 2007, e os investimentos federais
não passaram de RS$ 10 bilhões.
O salário real médio caiu em quase
50% nos últimos 10 anos, e as carências sociais crescem.
Exportam-se a preços subfaturados, e com incentivos fiscais
em vez de impostos, os fabulosos recursos naturais do Brasil, postos
a serviço de empresas transnacionais.
As remessas oficiais de lucros e dividendos
para o exterior somaram US$ 12,4 bilhões, de janeiro a abril
de 2008, mais que o dobro dos US$ 5,2 bilhões em igual período
de 2007. Essas remessas são fração
diminuta das transferências, cuja parte do leão provém
da fixação dos preços de exportações
e das importações e das despesas por serviços
superfaturados e até fictícios pagas às matrizes
das transnacionais.
Esse saqueio, de centenas de bilhões de reais por ano, é
financiado pelo BNDES a juros favorecidos e subsidiado pela política
fiscal dos governos federal e estaduais. Investimentos diretos
estrangeiros na produção, como os das indústrias
automotoras, são, amiúde, inferiores ao valor dos
subsídios governamentais que elas recebem.
Não admira que, sob a dominação política
e cultural das oligarquias
estrangeiras, Juscelino Kubitschek seja cultuado como herói,
pois acabou com a promissora indústria nacional, atraindo
as montadoras transnacionais, líderes na predação
econômica do País, não precisando, até
hoje, para investir um centavo de capital próprio para desviar,
em benefício das matrizes, centenas de bilhões de
reais por ano.
Essas montadoras anunciaram planos de “investir” US$
15 bilhões nestes três anos. O BNDES vem financiando
50%, i.e., R$ 13 bilhões, ao atual câmbio supervalorizado.
Governos estaduais tampouco cessam de doar dinheiro grosso para
que transnacionais controlem a economia. O governador de São
Paulo , José Serra acaba de assinar decreto que libera R$
6,8 bilhões em créditos acumulados de ICMS para montadoras.
Criou Programa de Incentivo (ProVeículo), que desonera do
ICMS na aquisição de bens de capital. A isso se somam
novos benefícios federais, adicionais aos da famigerada Lei
Kandir, a qual, além isentar a exportação de
tributos, assegura crédito de ICMS correspondente.
Notícia de 04.01.2008 (Estado de São Paulo ): “BNDES
libera R$ 7,3 bilhões para Vale investir no Brasil, nos próximos
5 anos.” Segundo L. Coutinho, presidente do banco, trata-se
da "maior linha já disponibilizada pelo BNDES para
uma empresa só". A Vale está também
negociando com outros bancos estatais contratos de financiamento
semelhantes aos assinados com o BNDES.
A operação aprovada pelo BNDES prevê 80% dos
créditos vinculados à variação do dólar
e 20% referenciados à Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP),
atualmente em 6,25% a.a. Ou seja: condições de mãe
para filho, inclusive porque o dólar é moeda com declínio
inexorável.
Em vez de promover o equilíbrio produtivo, a geração
de empregos, a tecnologia nacional e a diversificação,
o BNDES usa colossais recursos públicos para acentuar a concentração,
as distorções do modelo econômico e a transferência
para o exterior dos recursos gerados no mercado brasileiro.
Estes são outros beneficiários da ajuda do BNDES:
ALCOA, transnacional norte-americana, do cartel mundial do alumínio,
R$ 650 milhões. Grupo Gerdau, R$ 900 milhões. Usiminas,
idem. Klabin, R$ 827 milhões. Grupo Ultra, R$ 728 milhões.
Braskem, R$ 600 milhões. Copesul R$ 338 milhões.
Em resumo, os governos “brasileiros” mostram notável
continuidade, certamente inspirada do exterior, apesar de se acusarem
mutuamente por corrupções rasteiras. Uns e outros
observam silêncio sepulcral diante da megacorrupção.
1) PSDB/DEM etc., entregaram, em 1997, por nada, a grupos privados
pouco transparentes o controle da estatal Vale do Rio Doce, de valor
incomensurável, em relação ao qual é
ocioso discutir a quantas dezenas ou centenas de trilhões
de dólares corresponde. 2) PT, PMDB etc., mantêm e
ampliam subsídios fiscais e outros. Além disso, agraciam
com financiamentos recordistas do BNDES os investimentos da mesma
empresa-gigante doada por seus antecessores e “rivais”.
Entre os cartéis internacionais financiados pelo BNDES e
apoiados por subsídios federais e estaduais está o
dos fertilizantes químicos. Além de desastrosos para
as terras e para a saúde pública, esses insumos têm
tido seus preços aumentados continuadamente, sendo um dos
principais motores da alta dos preços dos alimentos. O mercado
é oligopolizado na produção e na distribuição,
e os lucros oficiais (pequena fração dos reais) foram,
em 15 anos, R$ 2,6 bilhões. A Ultrafértil foi privatizada,
em favor da transnacional Bunge, por US$ 207 milhões. Na
realidade, muito menos para quem conhece as formas de “pagamento”
admitidas na Lei de Desestatização, de 1990, aprovada
a toque de caixa pelo Congresso, a mando de Collor por encomenda
do Consenso de Washington.
Os absurdos do sistema colonial implantado no Brasil abrangem todos
os setores estratégicos, como geração e distribuição
de eletricidade, condenados, desde as privatizações,
ao subinvestimento e à oneração dos usuários,
exceto indústrias eletro-intensivas, como as multinacionais
do alumínio.
Não se pode fechar este painel sem falar na quebra, não
declarada, do monopólio estatal do petróleo, nem da
alienação de 68% do capital da Petrobrás. Nem
dos leilões de petróleo, a beneficiar transnacionais
na aquisição de jazidas detectadas pela Petrobrás,
para exportarem sem qualquer controle e pagando os royalties mais
baixos do mundo.
A Petrobrás realiza, de 2007 a 2011, investimentos de quase
US$ 20 bilhões em gás natural, e alguns bilhões
em termelétricas, poluentes e antieconômicas em comparação
com as que poderia ter, se não boicotasse a produção
de óleos vegetais. Nestes, dilapida recursos em iniciativas
com matérias-primas inadequadas, em vez de apoiar pequenos
e médios produtores no cultivo de dendê, mais de 15
vezes mais produtivo de óleo por hectare que a soja.
Dr. Adriano Benayon, economista
17 de junho de 2008
Artigo publicado em A Nova Democracia,
nr. 44, julho de 2008 - NR.
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