Economia de mercado sem capitalismo


Não há notícias recentes que tenham abordado outras formas econômicas que não considerem "normal" a política atual de juros. Sempre ouvimos a mesma e já cansativa estória do famigerado "mau necessário".

Para se elaborar outras alternativas econômicas torna-se necessário entender o que é - dinheiro? Qual é o papel fundamental da moeda? Aqui vale a pena então conhecer a proposta de Silvio Gesell, que publicou a partir do final do século XIX vários textos voltados a esta problemática.

Citando Werner Onken em seu artigo intitulado Economia de mercado sem capitalismo,

Como já constatado por Aristóteles, o filósofo da Antigüidade, existe uma contradição na função dupla do dinheiro, de servir como meio de troca para o mercado e ao mesmo tempo como instrumento dominante sobre o mercado.

A pergunta básica de Gesell era: Como se pode superar esta condição que o dinheiro detém de ser instrumento de poder usurário, sem ao mesmo tempo eliminar a função neutra que possui de meio de troca?

O poder do dinheiro sobre os mercados tem, segundo ele, duas causas:

Em primeiro lugar, o dinheiro convencional como instrumento de demanda, diferentemente do trabalho humano ou dos bens e serviços no lado da oferta na economia, pode ser estocado, sem prejuízo apreciável para seu detentor e pode ser retido temporariamente de circulação por motivos especulativos.

Em segundo lugar, o dinheiro possui a vantagem de ser muito mais transferível do que os bens e serviços, podendo, como o Coringa no jogo de cartas, ser utilizado a qualquer tempo e em qualquer lugar.

Estas duas características propiciam ao dinheiro – especialmente aos detentores de grandes somas – um privilégio especial: Podem interromper o circuito de compras e vendas, de poupar e de investir ou ainda exigir dos consumidores e produtores um juro como prêmio especial para que abram mão doe entesouramento ou de sua aplicação financeira em títulos de curto prazo e devolvam o dinheiro à circulação da economia real.

Fica já claro aqui que os defensores do "livre mercado" estão a serviço - conscientes ou não - de uma elite econômica que tem a origem de suas fortunas na exploração do trabalho do povo.

A proposta de Gesell para o controle da influência do grande capital na econômia seria impor uma taxação àqueles que estocassem grandes somas de dinheiro, da mesma forma como alguém que tem que pagar uma mensalidade para deixar seu veículo em um estacionamento.

Gesell não imaginou um regresso à proibição de cobrança de juros do direito canônico da escolástica medieval e tampouco na eliminação dos assim chamados „usurários judeus“ como forma para tirar o poder do dinheiro. Imaginava, isto sim, uma modificação institucional do sistema monetário de modo que a retenção de dinheiro em caixa representasse custos para quem o fizesse, neutralisando, assim, as vantagens do entesouramento e da liquidez.

No momento em que houver uma taxa associada ao entesouramento do dinheiro – comparável ao pagamento de vagões de carga parados em um sistema de transportes - , o dinheiro perderia a sua supremacia sobre os mercados e cumpriria então tão somente sua função útil de meio de troca.

No momento em que sua circulação não puder mais ser perturbada com manobras especulativas, será possível adequar a quantidade de moeda em circulação ao volume de bens, assim que o poder aquisitivo do dinheiro permanecerá tão estável como os pesos e medidas.

Já é fácil agora imaginar o interesse das casas bancárias dos Rothschild, Rockfeller, Warburg, Morgan e Kuhn & Loeb, entre outras, em financiar obras como esta.

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