| Os aliados plutocratas e
sua prática humanitária
Atos que “libertaram” a Europa
[...]
A única coisa que não havia sido totalmente esclarecida
era a maneira pela qual iria se processar, nas áreas densamente
habitadas, o ataque ao moral. A resposta a essa pergunta não
menos importante foi confiada a Arthur Harris, o novo chefe do Comando
de Bombardeiros, nomeado em 22 de fevereiro de 1942. Após
a guerra, Harris escreveu que seus superiores, Portal e Sinclair,
lhe haviam entregado, de antemão, a estratégia, os
locais e a forma de ataque. Essa última “deveria
ser o incêndio, primeiramente nas cidades do Ruhr, depois
em outros 14 grandes centros”.
Harris, um homem obstinado e ao mesmo tempo prático, sugeriu
queimar uma cidade onde o sucesso seria garantido: Lübeck.
Em primeiro lugar, devido aos nítidos contornos da baía
de Lübeck; em segundo, pelo fato de não possuir qualquer
indústria bélica de relevância, sendo, portanto,
fracamente defendida; em terceiro, pelas construções
medievais de madeira do centro antigo, facilmente inflamáveis.
Eram esses os motivos que justificavam a destruição
de Lübeck: posição geográfica, fragilidade
e belas antiguidades.
Ou seja, uma cidade sem defesa anti-aérea.
Uma perfeita tática pusilânime - NR.

Estátua do anjo da morte, Arthur Harris:
pelo fogo serás libertado!
Harris esperou a lua cheia. Na noite do Domingo de Ramos,
enviou 234 aeronaves e uma carga de quatrocentas toneladas de bombas,
um terço das quais continha combustível. O setor de
destruição era o tortuoso bairro dos comerciantes
e
marinheiros do tempo hanseático; com sua forma insular, banhado
pelos rios Trave e Wakenitz, oferecia uma excelente vista aérea.
No início do ataque, às 22h30, eram poucos os incêndios
visíveis, que só precisaram de vinte minutos para
devorar a indefesa metade da ilha voltada para o rio Trave, consumindo
armazéns, docas, guindastes e 1.500 preciosas casas, monumentos
históricos desprovidos de paredes mestras. No final, 130
quilômetros de fachadas ardiam em chamas. Os prédios
destruídos ou danificados perfaziam 62 por cento da área
construída. Na cidade antiga, oitocentos mil quilômetros
quadrados foram reduzidos a cinzas.
Os bombeiros só conseguiram deter o fogo às dez horas
da manhã seguinte. A catedral, cuja construção
fora iniciada por Henrique, o Leão, em 1173, não tinha
mais salvação. Às 10h30, a cúpula da
Torra Norte partiu-se ao meio; às 14 horas, o mesmo ocorreu
na Torre Sul. Dois sinos desabaram, o “Pulsglocke”,
de 1745, e o “Marienglocke”, de 1390, destruindo a nave
irmã, o grande órgão de Arp Schnitger. As bombas
de fragmentação que detonaram nas proximidades do
coro sacudiram os arcos da abóbada acústica, e a cúpula
principal veio abaixo, soterrando o altar-mór de madeira
e a cadeira episcopal, construída em 1310.

Sinos destruídos da catedral de Lübeck
Junto com 25 mil bastões incendiários, foram lançadas,
pela primeira vez, as bombas de 250 libras carregadas com benzol
e borracha sintética. Analisando o ataque alemão contra
Coventry, Harris adquiriu conhecimentos sobre a natureza e a dosagem
das bombas. Agora, dispunha de uma segunda e valiosa experiência,
ou seja, como reagia uma cidade, que a seu ver “mais parecia
um braseiro do que uma povoação”, ao ser
coberta por um tapete de chamas. Dos 120 mil habitantes,
320 perderam a vida naquela noite; era a maior cifra já alcançada
por uma ofensiva aérea britânica.[1]
Ao contrário de Lübeck, a cidade
de Coventry, na Inglaterra, era um alvo militar, pois abrigava no
centro da cidade a fábrica para motores de avião da
Rolls-Royce - NR.
[1]
Friedrich, Jörg: O Incêndio, Editora Record
2007, pág. 82-83
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